segunda-feira, 18 de abril de 2011

Leituras complementares... Texto n.º 2

    «Estamos de volta ao dilema sombrio. Aparentemente, temos ou de rejeitar a ciência ou de rejeitar a liberdade. No entanto, nenhuma opção parece de modo algum agradável.
     Determinismo Moderado
     Muitos filósofos pensam que há uma saída para este dilema. Outros pensam que esta saída é um grande erro. Você tem de decidir por si.
     Chama-se determinismo moderado a esta saída. Segundo os deterministas moderados, a nossa discussão enveredou por um caminho errado logo no início, quando afirmamos que as opções disponíveis eram a rejeição da liberdade ou a rejeição do determinismo. Os deterministas moderados afirmam que tal é ignorar uma terceira opção. Podemos ficar com o bolo e comê-lo ao mesmo tempo: podemos manter simultaneamente a liberdade e o determinismo. Deste modo podemos preservar ao mesmo tempo a ciência e a nossa humanidade. O argumento da primeira secção, que incluía que a liberdade e o determinismo se opõem entre si, estava errado. (…)
     Para explicar o que os deterministas moderados têm em mente, consideremos primeiro alguns exemplos. Imaginemos um rapazinho com uma grave incompreensão do conceito homem. Este rapaz pensa que faz parte da definição do termo «homem» a ideia de que os homens nunca choram. Tanto quanto sabe, os homens da sua família nunca choram, os homens na televisão nunca choram, etc. Pensa que o seu pai é um homem, evidentemente, mas um dia vê o pai a chorar. O rapaz fica muito confuso. Duas das suas crenças entraram agora em conflito: a sua crença de que o seu pai é um homem e a sua crença de que o seu pai está a chorar. De qual delas deve abdicar? Deve decidir que o seu pai afinal não é um homem? Ou deve decidir que o seu pai não estava realmente a chorar – que estava apenas a cortar cebolas, digamos? É óbvio que não deve tomar qualquer destas decisões. Ao invés, deve esclarecer a sua confusão conceptual sobre a natureza da virilidade. Então verá que as suas crenças sobre a virilidade e sobre o choro do pai afinal são compatíveis.
     (…)
     O determinista moderado afirma algo semelhante acerca do livre-arbítrio. O determinismo só parece entrar em conflito com a liberdade porque não compreendemos o conceito de liberdade. Se «livre» significasse «sem causa» então o conflito seria real. Mas não é o que «livre» significa. (Lembremo-nos da Madre Teresa). Uma vez esclarecida a nossa confusão conceptual, o conflito desaparecerá. Poderemos então acreditar simultaneamente no livre-arbítrio e no determinismo. Propriamente falando, nunca estiveram realmente em oposição.
     Até aqui, tudo bem. Mas se «livre» não significa «sem causa», o que significa? O determinista moderado pretende afirmar, aproximadamente, que uma acção livre é aquela que é causada do modo correcto. Quando o leitor foi raptado e forçado a cometer crimes, as suas acções não foram livres porque foram causadas do modo errado. As acções livres, como a invasão da Polónia por Hitler, a redacção deste capítulo por mim e a leitura do mesmo por si, também têm causas, mas são causadas do modo correcto. Todas as acções têm causas, mas ter uma causa não resolve a questão de uma acção ser ou não livre. A questão de a acção ser ou não ser livre é resolvida pelo tipo de causa que tem. Se as acções livres são as que são causadas de modo correcto, como afirma esta definição, então uma acção pode ser simultaneamente livre e causada. Assim, dada esta definição, a liberdade e o determinismo não entram em conflito.»

Conee, Earl e Sider, Theodore (2010), Enigmas da Existência,
Lisboa: Bizâncio, pp.161 – 164.
 

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