segunda-feira, 18 de abril de 2011

Leituras complementares... Texto n.º 1

    «Livre-arbítrio e determinismo
 
     O problema 
     Suponha que o raptam e o obrigam a cometer uma série de crimes terríveis. O raptor fá-lo disparar sobre a primeira vítima forçando-o a premir o gatilho de uma arma, hipnotizando-o para que envenene um segunda e depois empurra-o de um avião fazendo-o esmagar uma terceira. A situação deixa-o atordoado, aliviado por ter chegado ao fim a dolorosa experiência. Mas então, para sua surpresa, é detido pela polícia, que o algema e o acusa de homicídio. Os pais das vítimas gritam-lhes obscenidades enquanto a polícia o leva, humilhado.
     Estarão os pais e a polícia a ser justos ao culpá-lo pelas mortes? Obviamente que não, pois tem uma desculpa irrefutável: não agiu de acordo com o seu livre-arbítrio. Não podia evitar ter feito  o que fez; não podia ter feito de outro modo. (…)
     Todos pensamos que temos livre-arbítrio. Como poderíamos não o pensar? (...) O problema do livre-arbítrio é uma bomba –relógio escondida nas nossas crenças mais firmemente arreigadas.
     Eis o facto: todo o acontecimento tem uma causa. Este facto é conhecido como «determinismo».
     Todos acreditamos que há causas. Se os cientistas descobrissem vestígios na estratosfera superior a formar palavras «Ozzy Osbourne!» começariam de imediato a trabalhar para descobrir a causa. Teriam os vestígios sido ali deixados por uma divisão rebelde da NASA composta por fãs de heavy-metal? Seria um projecto científico de uma escola de génios adolescentes? (…) Podemos considerar qualquer destas hipóteses. Mas se há algo que os cientistas não considerariam é que simplesmente não houvesse qualquer causa. As causas podem ser difíceis de descobrir, ou fortuitas, ou podem ter muitas partes diferentes, mas estão sempre lá. (…) Ou seja, é razoável crer no determinismo.
     A nossa crença no determinismo é razoável porque todos vimos a ciência ser bem sucedida, uma e outra vez, na sua procura das causas subjacentes das coisas. As inovações tecnológicas devem a sua existência à ciência: arranha-céus, vacinas, naves espaciais, a Internet. A ciência parece explicar tudo o que observamos: a mudança das estações, o movimento dos planetas, o funcionamento interno das plantas e animais. Dado este registo de êxitos, esperamos que a ciência venha a dada altura a descobrir as causas de tudo.
     A ameaça à liberdade vem quando nos apercebemos de que esta marcha acabará por nos apanhar. Do ponto de vista científico, as escolhas e comportamentos humanos são apenas uma parte do mundo natural. Como as estações, os planetas, as plantas e os animais, as nossas acções são estudáveis, previsíveis, explicáveis, controláveis. É difícil dizer quando terão os cientistas aprendido o suficiente sobre o que faz os seres humanos funcionar, de modo a prever tudo o que fazemos, se é que se chegará aí. Mas independentemente de quando se irá descobrir as causas do comportamento humano, o determinismo garante-nos que essas causas existem.
      É difícil aceitar que as nossas próprias escolhas estão sujeitas a causas. Suponhamos que fica sonolento e se sente tentado a pousar este livro. As causas tentam fazê-lo dormir. Mas resiste-lhes! É forte e continua a ler mesmo assim. Terá frustrado as causas e refutado o determinismo? Claro que não. O continuar a ler tem a sua própria causa. Talvez o seu amor pela metafísica supere a sonolência. Talvez os seus pais o tenham ensinado a ser disciplinado. Ou talvez seja apenas teimoso. Seja qual for a razão, houve uma causa.
     Pode responder: «Mas não senti qualquer compulsão de ler ou de não ler; simplesmente decidi fazer uma ou outra coisa. Não senti qualquer causa». É verdade que não sentimos que muitos pensamentos, sentimentos e decisões são causados. Mas, na verdade, isto não põe em causa o determinismo. Por vezes as causas das nossas decisões não são conscientemente detectáveis, mas existem ainda assim. Algumas causas do comportamento são funções pré-consciente do cérebro, como ensina a Psicologia contemporânea, ou talvez mesmo desejos subconscientes, como pensava Freud. Outras causas de decisões podem nem sequer ser mentais. O cérebro é um objecto físico incrivelmente complicado, e pode «desviar-se» para esta ou para aquela direcção em resultado de certos movimentos das suas partes mais minúsculas. Tais causas puramente físicas não podem ser detectadas limitando-nos a direccionar a atenção para o nosso interior, independentemente de quão longa, árdua e calmamente se medite. Não podemos esperar ser capazes de detectar todas as causas das nossas decisões apenas por introspecção.
     Portanto: o determinismo é verdadeiro, mesmo no que se refere às acções humanas. Mas agora consideremos qualquer acção alegadamente livre. Para ilustrar o que está aqui em causa, consideremos uma acção horrivelmente repreensível do ponto de vista moral: a invação da Polónia por Hitler em 1939, Sem sombra de dúvida que culpamos Hitler por essa acção. Consideramos assim que agiu livremente. Mas o determinismo parece sugerir que Hitler não era afinal livre.
(…)
     E no entanto, tem de ter sido livre, pois de que outro modo o podemos culpar por este acto desprezível? A bomba-relógio explodiu. Duas das nossas crenças mais arreigadas, a nossa crença na ciência e a nossa crença na liberdade e na moralidade, parecem contradizer-se. Temos de resolver este conflito.» 

Conee, Earl e Sider, Theodore (2010), Enigmas da Existência,
Lisboa: Bizâncio, pp.145 – 151.

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