Texto n.º 1
«Algumas pessoas pensam que nunca é possível fazermos qualquer coisa diferente daquilo que de facto fazemos (…). Reconhecem que aquilo que fazemos depende das nossas escolhas, decisões e desejos e que fazemos escolhas diferentes em circunstâncias diferentes: não somos como a Terra, que roda no seu eixo com monótona regularidade. Mas afirmam que, em cada caso, as circunstâncias que existem antes de agirmos determinam as nossas acções e tornam-nas inevitáveis. O total das experiências, desejos e conhecimentos de uma pessoa, a sua constituição hereditária, as circunstâncias sociais e a natureza da escolha com que a pessoa se defronta, em conjunto com outros factores dos quais pode não ter conhecimento, combinam- -se todos para fazerem com que uma acção particular seja inevitável nessas circunstâncias.
Esta perspectiva chama-se determinismo. (…) A hipótese é que existem leis da Natureza, tal como aquelas que governam o movimento dos planetas, que governam tudo o que acontece no mundo — e que, de acordo com essas leis, as circunstâncias anteriores a uma acção determinam que ela irá acontecer e eliminam qualquer outra possibilidade.
Se isso é verdade, então mesmo enquanto estavas a decidir que sobremesa irias comer já estava determinado pelos muitos factores que operavam sobre ti e em ti que irias escolher o bolo. Não poderias ter escolhido o pêssego, apesar de pensares que podias fazê-lo: o processo de decisão é apenas a realização do resultado determinado no interior da tua mente.
Se o determinismo é verdadeiro para tudo o que acontece, já estava determinado antes de nasceres que havias de escolher o bolo. A tua escolha foi determinada pela situação imediatamente anterior, e essa situação foi determinada pela situação anterior a ela, e assim sucessivamente, até ao momento em que quiseres recuar. Mesmo que o determinismo não seja verdadeiro para tudo o que acontece – mesmo que algumas coisas aconteçam simplesmente, sem serem determinadas por causas que já existiam – continuaria a ser significativo se tudo aquilo que fizemos estivesse determinado antes de o fazermos. (…)
Se acreditasses nisso acerca de ti mesmo e das outras pessoas, talvez a maneira como te sentes em relação às coisas se alterasse. Por exemplo, poderias culpar-te por teres cedido à tentação e teres comido o bolo? Faria algum sentido dizeres “realmente devia ter comido antes o pêssego” se não podias ter escolhido antes o pêssego? Não faria certamente sentido dizê-lo se não houvesse fruta. Portanto, como pode fazer sentido se houvesse fruta mas não pudesses tê-la escolhido porque estava determinado à partida que irias comer bolo?
Isto parece ter sérias consequências. Além de não fazer sentido condenares-te por ter comido o bolo, provavelmente, não faria de modo algum sentido condenar fosse quem fosse por fazer alguma coisa má ou elogiá-lo por fazer alguma coisa boa. Se estivesse determinado à partida o que as pessoas fariam, seria inevitável: não poderiam ter feito outra coisa, dadas aquelas circunstâncias prévias. Portanto, como podemos achar que são responsáveis?
Nagel, Thomas (1987) Que Quer Dizer Tudo Isto?
Lisboa: Gradiva, pp. 49 – 52.
Para aceder ao Trabalho de Grupo:
GRUPOS A, B e C
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GRUPOS D, E e F
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